Um novo mestrado em terapia ocupacional: perspectivas e desafios

Adriana Maria Valladão Novais Van Petten, Iza de Faria-Fortini, Lívia de Castro Magalhães

Resumo


No ano em que comemoramos cinco décadas da regulamentação da profissão de terapia ocupacional no Brasil identificamos que várias foram as conquistas, mas muitos desafios ainda se apresentam para os profissionais e docentes da área, especialmente em um contexto de crescente valorização da pesquisa. A produção do conhecimento, no cenário nacional, está intimamente relacionada à pós-graduação, que tem proporcionado o aumento da produção científica e consolidação do conhecimento; o aumento da parceria de pesquisa entre academia e serviço e a formação de recursos humanos (RODACKI, 2015), impactando diretamente na avaliação e reformulação das políticas públicas, com vistas à melhoria dos serviços de saúde prestados e sua gestão. Nesta direção, a criação de espaços para produção do conhecimento e disseminação dos saberes da terapia ocupacional é fundamental, indispensável (MONZELI et al., 2018) e, por que não dizer, vital para a sobrevivência da profissão dentro de ambiente cada vez mais competitivo.

A terapia ocupacional apresenta percurso recente no contexto nacional da pós-graduação, com a criação, em 2010, do primeiro curso de mestrado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A ampliação da oferta de cursos de pós-graduação stricto sensu no sistema nacional, nos quais o principal objeto de estudo é a terapia ocupacional, favorece o crescimento, fortalecimento, consolidação e reconhecimento da terapia ocupacional enquanto ciência e deve ser uma meta para os grupos de docentes que vem avançando em pesquisa. A aprovação recente, pela CAPES, de dois cursos de mestrado em terapia ocupacional, um mestrado profissional na Universidade de São Paulo (USP) e outro acadêmico na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), vem agregar esforços nessa direção.

O Mestrado em Estudos da Ocupação (CPGEO-UFMG), com início das atividades no segundo semestre de 2019, apresenta proposta pautada na articulação de diferentes áreas do conhecimento que contribuem para o avanço do saber interdisciplinar sobre a ocupação e tem caráter inovador ao propor, desde o início do programa, um modo de produção científica mais colaborativo. O curso tem como objetivo formar recursos humanos qualificados para lidar com questões ocupacionais de forma sistêmica, considerando seus aspectos biológicos, sociais, econômicos, históricos, antropológicos, filosóficos e culturais. Visa também fomentar análise crítica das teorias e recursos que utilizamos, criando ambiente estimulante para a discussão, inovação e geração de ideias que consolidem o estudo da ocupação como área de investimento acadêmico e, ao mesmo tempo, deem suporte à prática baseada em evidências.

O curso conta com uma área de concentração e duas linhas de pesquisa. A área de concentração, denominada “Ocupação, Participação e Inclusão”, aborda temas/conteúdos relacionados ao estudo da Ocupação como objeto principal de investigação, com foco na análise da participação das pessoas em situações de vida no que tange às tendências e perspectivas da inclusão social. A linha de pesquisa “Ocupação, Cuidado e Funcionalidade” tem como propósito investigar a influência de fatores intrínsecos e extrínsecos (relacionados ao ambiente, incluindo produtos e tecnologia) ao indivíduo, no engajamento nos papéis ocupacionais. Além disso, enfatiza a compreensão das estratégias de cuidado (avaliação e intervenção) para prevenção, promoção e recuperação da funcionalidade sob perspectivas transdisciplinares. A linha de pesquisa “Ocupação, Políticas Públicas e Inclusão Social” busca: (1) compreender os papéis ocupacionais a partir das dimensões socioeconômica e relacional, analisando como os aspectos sociais impactam nas oportunidades ocupacionais e na construção da cidadania de diferentes grupos populacionais, sejam eles vinculados à questão de gênero, raça, estigma, cultura, entre outros; (2) investigar condições de risco e de proteção, sobre bem-estar e a participação, bem como analisar a implementação das Políticas Sociais; (3) compreender as estratégias de inclusão social e como o estado, por meio das políticas públicas, atende as necessidades e as demandas que tangenciam as vivências ocupacionais no trabalho, lazer, estudo, cultura, atividades domésticas e cotidianas.

O Mestrado em Estudos da Ocupação contará com a participação de docentes permanentes de outras Instituições Federais de Ensino Superior, estimulando a parceria entre pesquisadores e fortalecendo grupos de pesquisa interinstitucionais, bem como ampliando a possibilidade de captação de alunos de outras regiões do estado, com maior capilarização do curso.

A criação do Mestrado em Estudos da Ocupação é resultado de muita luta, não só dos docentes envolvidos, mas também de colegas que nos estimularam e, de alguma forma, contribuíram para a aprovação da proposta. Representa mais um passo, diante de uma longa trajetória, no sentido da consolidação da terapia ocupacional e da produção do conhecimento no país. Celebramos essa vitória, juntamente com colegas da USP, cientes da nossa responsabilidade e dos desafios que se apresentam diante do contexto atual do país. Esperamos que, em breve, possamos avançar dentro do sistema da pós-graduação, com a aprovação de novos cursos de pós-graduação stricto sensu na área de terapia ocupacional, considerando-se as demandas de um país com de dimensões continentais e enorme diversidade cultural como o Brasil.

 

Adriana Maria Valladão Novais Van Petten, Iza de Faria-Fortini, Lívia de Castro Magalhães
Mestrado em Estudos da Ocupação, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil.


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DOI: https://doi.org/10.4322/2526-8910.ctoED27021

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Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional/Brazilian Journal of Occupational Therapy
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