Mães acadêmicas: equilibrando os papéis de mães e pesquisadoras/Academic mothers: balancing the roles of parent and researcher

Tatiana Barcelos Pontes, Aline Teixeira Alves, Letícia Correa Celeste, Lilian Dias Bernardo, Adriana Gonçalves Queiroz, Marina Poletto, Janet Njelesani

Resumo


Existe um provérbio bem conhecido que diz: “É preciso uma vila para criar um filho”. Como mães e pesquisadoras realmente concordamos com esta afirmação, entretanto nós também acreditamos que seja necessária uma vila para criar uma mãe. Essa vila materna pode ter diversos contornos e formas, sendo fonte de apoio com a qual uma mãe pesquisadora pode contar e sendo espaço de aprendizado e interação entre mães e comunidade.

Quando falamos do papel ocupacional de pais, não podemos negar as mudanças ocorridas na sociedade na última década. Essas mudanças levaram a uma divisão mais equitativa no trabalho e em casa, incluindo a participação de outras pessoas, como os parceiros, nos cuidados com as crianças. No entanto, o mais comum, continua sendo uma divisão desigual de cuidados; uma desigualdade não apenas observada em casa, mas também reproduzida pelas pessoas no ambiente de trabalho (WARD, 2014).

Nós entendemos nossa posição privilegiada como acadêmicas, mas os desafios enfrentados e as estratégias usadas para equilibrar com sucesso a vida de pesquisadora em uma carreira docente e de mãe precisam ser destacados e discutidos em nossa comunidade (HALLSTEIN; O’REILLY, 2012). Portanto, nossa intenção neste editorial é iniciar uma conversa e advogar por um local de trabalho inclusivo, onde as mulheres possam ter sucesso em seus empregos enquanto são mães. Apresentamos ações para facilitar o envolvimento das mães e promover suas realizações como pesquisadoras. Este editorial também serve como uma introdução ao trabalho de Leventon, Roelich e Middlemiss (2019), “An academic mother’s wish list: 12 things universities need” publicada na Nature1 e traduzida neste volume com a concordância dos autores e da revista (Anexo A).

Um dos principais desafios relatados pelas mães acadêmicas é a pressão para continuar publicando durante a licença maternidade. Ao se candidatar a uma progressão de carreira docente, subsídios ou financiamentos de pesquisas, o período de licença maternidade não é considerado, deixando as mães acadêmicas em grande desvantagem em seus planos de carreira. Isso se evidencia quando temos que atingir as métricas definidas por agências reguladoras de pós-graduação (por exemplo, CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Muitas de nós, vivenciamos essa pressão: “porque, ao se fazer pesquisa, a interrupção na carreira não é apenas à época da licença-maternidade (120 a 180 dias no Brasil, 12 semanas nos EUA)” e “o meu maior produto do ano passado foi minha filha”; porque “ser mãe é um trabalho em tempo integral”. Conforme discutido por Ward (2014), os estereótipos de gênero nos ambientes doméstico e de trabalho dificultam o desempenho das mulheres pesquisadoras. A participação exigida no ensino, atividades administrativas, pesquisa, e a falta de flexibilidade ou a ausência de carga de trabalho reduzida podem dificultar a progressão funcional da mãe acadêmica ou dificultar o ingresso na profissão. Por exemplo, uma de nós relatou: “Quando voltei ao trabalho, senti que meu novo papel ocupacional - ser mãe - foi completamente ignorado. Eu tinha a mesma carga horária em sala de aula e era esperado que eu retomasse todas as atividades que eu costumava realizar desde o meu primeiro dia”.

Mesmo em ambientes onde a maioria dos profissionais são mulheres, como nas Ciências da Saúde ou Ciências da Reabilitação, os departamentos geralmente não estão preparados para incluir as mães no trabalho, como observou uma de nós: “Não há vestiários, espaço para ordenhar ou amamentar e, às vezes, quando precisei trazer o bebê para o trabalho, alguns colegas discordaram da situação”. Foi um consenso entre nós que “seria essencial termos uma creche na universidade” e que isso também ajudaria toda a comunidade universitária. Além disto, além de não termos um local adequado ainda contamos com a falta de empatia de alguns colegas.

A falta de discussão sobre ser mãe e pesquisadora pode levar alguns colegas a não compreender o real impacto que essa significativa pausa na carreira pode acarretar, conforme observado por uma de nós: “Quando voltei (da licença maternidade), eles me perguntaram se eu tinha descansado muito”. É importante entender que a forma como cada pessoa vivencia a maternidade/paternidade pode ser diferente, especialmente quando falamos de papel de pai ou de mãe, para evitar situações como a vivenciada por uma de nós: “afirmou que o período de licença maternidade não era desculpa para não publicar, pois o nascimento das filhas foi o período mais produtivo dele”.

Para aproximar esses dois mundos e permitir uma coexistência mais harmoniosa de ser mãe pesquisadora, nós incentivamos pais, parceiros/famílias e aliados a compartilhar histórias boas e desafiadoras sobre serem pais, a levar crianças a conferências e procurar advogar por subsídios para que nossos filhos também sejam acolhidos nesses locais. E que assim possamos encontrar nossa “vila” (grupo de apoio), incluindo a participação nos grupos on-line “Parents in Science” ou “Academic Mamas”. Como profissionais, também precisamos advogar por uma licença parental decente, ter empatia com colegas e estudantes que são pais, e exigir espaços públicos para que nossas crianças sejam acolhidas, para que todos possamos ter o conhecimento e o apoio necessários para sermos os pais que desejamos ser.

 

Tatiana Barcelos Pontes

Universidade de Brasília – UnB, Brasília, DF, Brasil.

Aline Teixeira Alves

Universidade de Brasília – UnB, Brasília, DF, Brasil.

Letícia Correa Celeste

Universidade de Brasília – UnB, Brasília, DF, Brasil.

Lilian Dias Bernardo

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro – IFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Adriana Gonçalves Queiroz

Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Marina Poletto

Universidade de Brasília – UnB, Brasília, DF, Brasil.

Janet Njelesani

Department of Occupational Therapy, New York University – NYU, New York, NY, U.S.


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DOI: https://doi.org/10.4322/2526-8910.ctoED2704

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